Há uma semana iniciou a queda de temperatura na cidade.
Hoje, fui dar uma volta no bairro pra desanuviar a cabeça; em tempos de reclusão quase que absoluta é bom sair as vezes, mesmo não sendo o correto a fazer, pra dar um tempo pra mente, que não para de pensar em tudo sem descanso.
Voltando pra casa. Subindo a primeira subida íngreme da Servidão, focado no celular, ignorei o rapaz que estava procurando algo na lata de lixo. Ele deveria estar numa faixa etária como a minha; seus trinta e poucos anos.
"Ei rapaz? Ei? Eu não vou te pedir dinheiro!"
Pensei: Nem se você quisesse. Não tenho um puto no bolso. A única coisa de valor que carrego é o celular. Espero que não me assalte.
"Me arruma um moletom, não precisa ser agora. Vai me servir de coberta também!"
Engraçado que nem pensei na hora, tirei o óculos e retirei o moletom que estava usando. Na inocência ainda disse: É o único que eu tenho! E realmente, moletom era o único mesmo. Mas eu teria outras coisas pra usar.
E entreguei o moletom a ele.
Fui agradecido com um toque de cotovelos, como aperto de mão, devido a situação do momento.
"Você é daqui?"
Disse que era, pois moro aqui a quase quatro anos.
"Acho que não, pessoas daqui não são assim!"
"Com essa cara de bravo, não pensei que fosse humilde."
Dei tchau com a mão e continuai seguindo caminho de casa.
Em casa os pensamentos eram muitos.
Como fiz isso sem ao menos pensar? Me questiono se sou de certa forma diferente das outras pessoas, até mesmo melhor. A palavra melhor me vem a cabeça, mas não acho nada correto usá-la. Que melhor seria eu pensando ser melhor que alguém?
Depois penso no moletom. Amanhã vou correr com frio. Não, tenho outra coisa que posso usar. Até mais leve pra carregar depois que o corpo esquentar. Depois compro outro moletom; pensando também que não queria gastar com isso. Que culpa tenho eu, sou taurino, penso em cada centavo que vou gastar.
Bom, o valor de um novo moletom não vai me fazer falta.
E isso me fez refletir sobre outra coisa também. Sobre a minha eterna preocupação sobre arrumar um trabalho que possa me sustentar de forma a não me preocupar.
Não sou um gastão, tampouco gasto com futilidades. Mas sou uma pessoa segura, não me sinto confortável viver no limite. Prefiro que quando preciso, tenho para fazê-lo.
Logo penso que meu seguro desemprego não será suficiente, para pagar minhas contas e arrumar minha moto. Moto está que se não for trocada a corrente, posso sofrer um acidente e me custar mais caro. Terei que dar um jeito.
Mas a questão era a minha preocupação com o dinheiro. Tudo o que eu quero é arrumar um trabalho que sane minhas necessidades. Aluguel de 850 reais, mais mercado de 800, mais cartão de 250, mais abastecimento da moto 50, mais uns 200 apenas pra poder me divertir no mês - tomar minha cerveja, pegar uma balada, sair com um pretendente novo, quem sabe vire atual - e poder guardar pelo menos mais uns 200 mês para potenciais surpresas como, manutenção da moto, comprar algo que necessito, como um moletom novo, pagar algum curso online, que ultimamente ando fazendo.
Porém, o que me aconteceu mais cedo me fez relaxar um pouco. Vai dar tudo certo! Olha aquele rapaz, ele tem muito menos que eu; eu tenho luxos! Por mais que eu não seja um acumulador e me desfaça quase sempre das coisas que não uso mais; eu sou um privilegiado. E agradeço muito a Deus por isso.
Antes disso ainda pensava, com meus maus pensamentos: Putz, não tem nada de legal pra comer. E realmente a geladeira está aparentemente vazia.
Mas cheguei feliz em casa. Como já havia me dado fome, fui procurar o que fazer. Com um pedaço de linguiça calabresa e bacon congelados consegui fazer uma farofa que minha mãe me ensinou. Ainda tinha um pouco de farinha Deusa que ela havia me trazido na última vinda dos meus pais a minha casa. Essa marca de farinha não é vendida em supermercados no sul do país, eu mesmo já havia entrado em contato com o SAC pra perguntar a respeito, só vendem para restaurantes, uma pena. Acrescentei um pouco de milho nessa farofa e com o restante da lata fiz um creme de milho, usando apenas meia lata de creme de leite que já havia aberto pra comer com Toddy. Mais arroz branco com muito alho.
E eu ainda reclamando anteriormente. Vou me policiar para não reclamar mais e ser mais feliz com o que tenho, afinal não me falta nada.
Também sei que o ato de reclamar não é fácil de se tirar, mas vou persistir.
Amanhã pretendo reavaliar meu currículo e preparar dois: um para vagas de exatas e um para humanas, e assim iniciar a procura por trabalho.
Daí já me inicia uma outra dúvida. Procuro trabalhos de bom salário, ou trabalhos que vão realmente me fazer feliz?
Parece uma pergunta fácil. O que vai me fazer feliz, claro! Mas e o dinheiro, do qual acho de suma importância pra viver bem?
Bom, melhor ir dormir. Amanhã tento pular lá pelas dez para iniciar a rotina diária.
Nenhum comentário:
Postar um comentário